A malária é uma doença infecciosa febril aguda, transmitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada pelo protozoário do gênero Plasmodium. No Brasil, ela é especialmente comum na região amazônica, mas pode ocorrer em outras áreas onde o mosquito está presente.
A malária não é contagiosa, mas é uma condição séria que requer diagnóstico e tratamento rápidos para evitar complicações graves.
A transmissão acontece quando o mosquito pica uma pessoa doente, ingere o parasita e, após alguns dias, pica uma pessoa saudável, transmitindo o Plasmodium através da saliva.
Outras formas mais raras de transmissão incluem:
- Transfusão de sangue contaminado.
- Uso de seringas compartilhadas.
- Transmissão congênita (da mãe para o feto durante a gravidez).
Existem várias espécies de Plasmodium, mas as principais no cenário brasileiro são:
- Plasmodium vivax – é o tipo mais comum. Geralmente causa uma forma menos grave da doença, mas o parasita pode permanecer adormecido no fígado e causar recaídas meses depois.
- Plasmodium falciparum – é o tipo mais perigoso, podendo evoluir rapidamente para formas graves como malária cerebral, anemia severa ou insuficiência de órgãos, se não for tratado imediatamente.
Fatores de risco para malária
Os fatores de risco para a malária estão diretamente ligados à exposição ao mosquito transmissor (Anopheles) e à vulnerabilidade do sistema imunológico da pessoa infectada.
Veja os principais pontos de atenção:
- Localização geográfica e ecossistema – este é o fator mais determinante. O risco é maior em áreas onde o mosquito encontra condições ideais de calor e umidade para se reproduzir.
No Brasil, a Região Amazônica concentra a grande maioria dos casos. Viver ou trabalhar perto de bordas de matas, igarapés, áreas de desmatamento recente ou locais com água limpa e sombreada aumenta a exposição ao vetor.
- Comportamento e horários de exposição – o mosquito é mais ativo durante o entardecer e o amanhecer. Estar ao ar livre sem proteção nesses períodos aumenta drasticamente a chance de picada.
A ausência de telas em janelas, mosquiteiros e o não uso de repelentes em áreas de risco são fatores facilitadores.
- Falta de imunidade – pessoas que nunca tiveram contato com o parasita, como turistas ou profissionais que viajam para áreas endêmicas, correm um risco maior de desenvolver a forma grave da doença, pois o corpo não possui qualquer memória imunológica contra o Plasmodium.
Quem vive em áreas de alta transmissão pode desenvolver uma imunidade parcial ao longo da vida, apresentando sintomas mais leves, mas ainda assim podendo adoecer e transmitir o parasita.
- Grupos de risco para complicações – algumas pessoas têm maior probabilidade de evolução para quadros críticos. As gestantes correm mais risco pois a malária na gravidez é perigosa para a mãe e para o bebê, podendo causar anemia grave, aborto ou baixo peso ao nascer.
Crianças pequenas possuem sistema imunológico ainda em desenvolvimento. E pacientes com doenças que afetam o sistema imune têm menor capacidade de combater a replicação do parasita.
- Fatores socioeconômicos e ocupacionais – pessoas que trabalham em atividades como mineração (garimpos), extração de madeira, agricultura e construção de estradas em áreas de mata estão sob risco constante.
Casas sem vedação adequada ou localizadas em áreas de assentamento precário facilitam a entrada do mosquito.
- Acesso ao sistema de saúde – o risco de a doença se tornar letal aumenta quando há atraso no diagnóstico, sendo que demorar mais de 48 horas para iniciar o tratamento após os primeiros sintomas de febre, é um risco.
Já o fato de não completar o ciclo de medicamentos prescrito, pode causar recaídas e tornar o parasita mais resistente.
Sintomas da malária
Os sintomas da malária costumam aparecer entre sete e 15 dias após a picada do mosquito infectado, embora em alguns casos o intervalo possa ser maior.
A principal característica da doença é a natureza cíclica dos sintomas, que aparecem em episódios chamados de acessos maláricos.
Os sinais são divididos em três estágios principais durante uma crise:
- Estágio de calafrio (duração: 15 min a 1 hora) – sensação de frio intenso, tremores pelo corpo, bate-pau (dentes batendo).
- Estágio de febre (duração: 2 a 6 horas) – febre alta, frequentemente atingindo 39°C ou 40°C. Dores intensas de cabeça (cefaleia), muscular e nas articulações.
Mal-estar geral com náuseas, vômitos e tontura. Pele quente e seca.
- Estágio de sudorese (duração: 2 a 4 horas) – suor abundante que ocorre quando a febre baixa bruscamente.
Fraqueza extrema, onde o paciente sente-se exausto após o fim do ciclo.
Além do ciclo clássico de febre, a pessoa pode apresentar:
- Anemia – devido à destruição das hemácias (glóbulos vermelhos) pelo parasita.
- Icterícia – tom amarelado nos olhos e na pele.
- Aumento do baço (esplenomegalia) – que pode causar dor ou desconforto no abdômen.
Atenção aos sinais de alerta para malária grave.
A malária causada pelo Plasmodium falciparum pode evoluir rapidamente para formas graves. Procure ajuda médica imediata se houver:
- Alteração da consciência – confusão mental, sonolência excessiva ou convulsões (malária cerebral).
- Dificuldade respiratória – respiração rápida ou ofegante.
- Hemorragias – sangramentos espontâneos.
- Urina muito escura – pode indicar destruição massiva de glóbulos vermelhos.
- Vômitos persistentes – impedindo a ingestão de alimentos e remédios.
Se você esteve em uma área de transmissão (como a região amazônica ou países africanos) nos últimos meses e apresentar qualquer quadro de febre, o diagnóstico de malária deve ser investigado prioritariamente. O teste é rápido e essencial para evitar complicações.
Diagnóstico da malária
O diagnóstico rápido e o início imediato do tratamento são os pilares para a cura da malária e para interromper a cadeia de transmissão. No Brasil, o SUS centraliza essas etapas, oferecendo exames e medicamentos de forma gratuita.
O diagnóstico deve ser feito assim que surgirem os primeiros sintomas (febre) em pessoas que vivem ou visitaram áreas de risco.
- Gota espessa é o exame padrão-ouro no Brasil. Uma gota de sangue do paciente é analisada em microscópio. Ele permite identificar a espécie do parasita e a quantidade (carga parasitária), o que ajuda a definir a gravidade do caso.
- Esfregaço delgado também utiliza microscopia e serve para confirmar a espécie do parasita com mais precisão morfológica.
- Testes rápidos (TDR) funcionam como um teste de farmácia (imunocromatografia) e dão o resultado em cerca de 15 a 20 minutos. São úteis em locais remotos onde não há microscópios ou técnicos treinados.
- PCR (Biologia Molecular) é mais sensível, mas raramente usado no diagnóstico de rotina, sendo mais comum em pesquisas acadêmicas.
Tratamento da malária
O tratamento da malária não é feito com antibióticos comuns, mas com antimaláricos específicos. A escolha do remédio depende da espécie do Plasmodium, da idade do paciente e da gravidade.
- Tratamento para Plasmodium vivax é o tipo mais comum no Brasil. O objetivo é matar os parasitas no sangue e também os adormecidos no fígado (chamados hipnozoítos) para evitar recaídas.
Geralmente usa-se a combinação de cloroquina (por três dias) e primaquina (por sete ou 14 dias).
É fundamental terminar o tratamento da primaquina, mesmo que os sintomas sumam no segundo dia, para evitar que a doença volte meses depois.
- Tratamento para Plasmodium falciparum. Como é o tipo que mais causa mortes, o tratamento foca em eliminar o parasita rapidamente.
Utiliza-se as terapias combinadas à base de artemisinina (ACTs), como o artemeter + lumefantrina.
A primaquina também pode ser usada em dose única para impedir que a pessoa continue transmitindo o parasita para novos mosquitos.
- Tratamento da malária grave requer internação hospitalar imediata. O medicamento costuma ser administrado por via intravenosa (artesunato de sódio) até que o paciente consiga ingerir comprimidos.
Suporte para os órgãos afetados (diálise para rins, ventilação para pulmões, etc.).
Orientações importantes
Não se automedique, pois o uso incorreto de antimaláricos pode criar resistência e não curar a doença.
Após o tratamento, o paciente deve retornar para realizar uma nova lâmina de verificação de cura (LVC) conforme orientação médica.
Gestantes e crianças exigem esquemas de dosagem e tipos de medicamentos específicos, já que alguns antimaláricos, como a primaquina, são contraindicados para gestantes e bebês menores de seis meses.
Prevenção da malária
A prevenção da malária foca em evitar a picada do mosquito Anopheles (o vetor) e, em casos específicos de viagem, no uso de medicamentos preventivos.
Como o mosquito tem hábitos predominantemente noturnos, do entardecer ao amanhecer, as medidas devem ser intensificadas nesses horários.
Para quem planeja viajar para regiões de mata ou para o Norte do Brasil, é recomendável consultar um médico em uma “medicina de viagem” para orientações sobre quimioprofilaxia ou medidas preventivas específicas.
Aqui estão as principais estratégias de prevenção:
- Utilize repelentes de longa duração que contenham DEET (acima de 20%), Icaridina ou IR3535. É necessário reaplicar conforme as instruções da embalagem, especialmente se houver muito suor.
- Em áreas de mata ou durante o final da tarde, use roupas que cubram a maior parte do corpo: calças compridas, meias e camisas de manga longa. Roupas de cores claras são preferíveis, pois facilitam a visualização de insetos e atraem menos o mosquito.
- O uso de redes de proteção sobre a cama é uma das medidas mais eficazes, especialmente se forem impregnadas com inseticidas de longa duração (permetrina).
- Manter o ambiente vedado impede a entrada do mosquito na residência. Fique atento as portas e janelas.
- O fluxo de ar dificulta o voo do mosquito e as temperaturas mais baixas reduzem sua atividade. Por isso, ventiladores e ar condicionado podem ajudar.
- Diferente do Aedes aegypti (dengue), o Anopheles prefere águas mais limpas, sombreadas e de baixa correnteza (como beiras de rios e igarapés). Evitar o acúmulo de água parada ao redor de casa continua sendo essencial.
- Para quem viaja de áreas não endêmicas para regiões de altíssimo risco (alguns países da África ou áreas específicas da Amazônia), um médico pode prescrever a quimioprofilaxia.
Consiste em tomar doses baixas de antimaláricos antes, durante e por um período após a viagem.
No Brasil, a quimioprofilaxia não é recomendada de rotina para viagens à Amazônia, sendo priorizado o diagnóstico rápido se houver febre. O uso deve ser discutido individualmente com um especialista em Medicina de Viagem.
- No Brasil, a estratégia de tratar para prevenir é fundamental. Ao tratar uma pessoa doente rapidamente, impede-se que o mosquito pique essa pessoa e espalhe o parasita para outros membros da comunidade.
- Em áreas de surto, as autoridades de saúde realizam a aplicação de inseticidas nas paredes internas das casas (onde o mosquito costuma pousar após picar).
- Atualmente, existe uma vacina (RTS,S/AS01) recomendada pela OMS, mas ela é focada principalmente em crianças na África Subsaariana, onde a mortalidade infantil por malária (tipo P. falciparum) é altíssima.
No Brasil, devido ao perfil epidemiológico diferente (predomínio de P. vivax), a vacina ainda não faz parte do calendário nacional de imunização.
Fontes – Portal Fiocruz; Blog Sabin; Biblioteca Virtual em Saúde; Hospital Albert Einstein; Tua Saúde; Rede D’Or São Luiz; e Portal Drauzio Varella.
