A exposição ao sol, excessiva e sem proteção, é o principal fator de risco para o câncer de pele. Mas o sol também pode ser um aliado da saúde, quando a exposição é moderada e estratégica.
Para ter uma exposição segura, o indicado é estar no sol por um período curto e direcionado, geralmente fora dos horários de pico de radiação UV, e com o resto do corpo protegido.
Para a produção de vitamina D, o ideal é se expor entre cinco e trinta minutos, de acordo com o tom de pele, onde as mais claras precisam de menos tempo.
O horário adequado para a exposição é antes das 10 ou após as 16 horas.
Proteja sempre o rosto, que é a área mais sensível e cronicamente exposta. Use chapéu, óculos de sol e protetor solar com FPS 30 ou superior nessa região.
Exponha apenas áreas como braços e pernas, ou costas, por um período limitado, e sem protetor, para permitir a síntese da vitamina D.
No entanto, qualquer exposição prolongada (acima dos 30 minutos, ou durante o horário de pico) exige o uso de protetor solar em toda a pele exposta e reaplicação a cada duas horas.
Quando os raios UVB atingem a pele, eles interagem com um precursor do colesterol (7-deidrocolesterol) para iniciar a síntese da vitamina D3.
A vitamina D é crucial para a saúde óssea (pois ajuda o corpo a absorver cálcio), o fortalecimento do sistema imunológico, e pode atuar na regulação do humor. Cerca de 80% a 90% da vitamina D do corpo é obtida através do sol.
A luz solar também traz benefícios que vão além da vitamina D:
- Estimula a produção de serotonina (hormônio do bem-estar), ajudando a combater a depressão e a melhorar o humor.
- Ajuda a sincronizar o ciclo circadiano (o relógio biológico
- ), expondo o corpo à luz pela manhã, o que melhora a qualidade do sono à noite.
- A exposição moderada pode liberar o óxido nítrico na pele, que ajuda a relaxar e dilatar os vasos sanguíneos, contribuindo para a redução da pressão arterial.
Fatores de risco para o câncer de pele
O câncer de pele é o tipo de câncer mais frequente no Brasil e no mundo.
Os principais fatores de risco para o câncer de pele, que incluem os tipos não melanoma (carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular) e o melanoma (o mais grave), são:
- Acumulação de dano solar ao longo da vida, especialmente nas regiões mais expostas (rosto, orelhas, pescoço, braços).
- Histórico de ter tido queimaduras de sol com bolhas, especialmente durante a infância e adolescência. O dano celular nessas fases é muito relevante.
- Exposição ao sol sem proteção entre 10h e 16h, quando a incidência de raios UV é mais alta.
- O uso de câmaras de bronzeamento artificial é um fator de risco significativo, especialmente antes dos 35 anos, e está associado a um risco elevado de melanoma.
- Pessoas que trabalham sob exposição direta e contínua ao sol (agricultores, pescadores, trabalhadores da construção civil, etc.) sem proteção adequada.
- Exposição a radioterapia em tratamentos prévios (raro, mas um fator).
- Pessoas com pele, olhos e cabelos claros (loiros ou ruivos) produzem menos melanina (o pigmento protetor), sendo muito mais sensíveis e com maior risco.
- Pessoas que se queimam facilmente e se bronzeiam pouco ou não se bronzeiam.
- Ter um grande número de pintas no corpo (geralmente mais de 50) aumenta o risco, especialmente para o melanoma.
- Pintas grandes, de formato irregular, com bordas indefinidas ou cores variadas.
- Já ter tido qualquer tipo de câncer de pele (Carcinoma Basocelular, Espinocelular ou Melanoma). Quem já teve um, tem maior chance de desenvolver outro.
- Ter parentes de primeiro grau (pais, irmãos) que tiveram melanoma, indicando uma possível predisposição genética ou síndrome hereditária (ex: mutação no gene CDKN2A).
- O risco aumenta com a idade, pois os danos solares são cumulativos ao longo da vida. O câncer de pele não
- Pessoas com sistema imunológico enfraquecido, como pacientes transplantados ou aqueles em uso de medicamentos imunossupressores, têm um risco significativamente maior, especialmente para o Carcinoma Espinocelular.
- Lesões crônicas na pele, cicatrizes de queimaduras graves antigas, feridas que não cicatrizam ou a presença de queratoses actínicas (lesões pré-cancerígenas).
Embora o risco seja muito maior em pessoas de pele clara, o câncer de pele pode afetar qualquer pessoa, incluindo as de pele negra ou morena, sendo o melanoma mais comum nestes grupos em locais não expostos ao sol, como a palma das mãos, planta dos pés e unhas.
Atenção com manchas e pintas
As manchas e marcas de alerta para o câncer de pele variam dependendo do tipo da doença (melanoma ou não-melanoma). A detecção precoce é fundamental para o sucesso do tratamento em todos os casos.
A principal ferramenta para autoexame e reconhecimento de lesões é a Regra do ABCDE, focada no tipo mais agressivo, o melanoma.
O melanoma é o tipo menos comum, mas o mais perigoso. Ele geralmente surge como uma nova pinta escura ou a partir da alteração de uma pinta já existente.
- A – assimetria – se você traçar uma linha imaginária no meio da pinta, as duas metades são diferentes. Lesões benignas costumam ser simétricas.
- B – bordas – contornos irregulares, mal definidos, entalhados ou “borrados”. Pintas normais têm bordas lisas e regulares.
- C – cor – presença de múltiplas cores na mesma lesão, como diferentes tons de preto, marrom, castanho, misturados com áreas brancas, vermelhas ou azuis.
- Pintas benignas geralmente têm uma cor uniforme.
- D – diâmetro – lesões com diâmetro maior que seis milímetros (aproximadamente o tamanho da borracha de um lápis).
- No entanto, o melanoma pode ser menor no início, por isso o E (Evolução) é crucial.
- E – evolução – a mudança é o sinal mais importante. Qualquer alteração de tamanho, forma, cor, aparência, ou o surgimento de sintomas (coceira, sangramento, dor ou crostas) em uma pinta ou mancha existente.
Os cânceres não-melanoma (carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular) são os mais frequentes, geralmente aparecem em áreas expostas ao sol, e tendem a ter uma taxa de cura muito alta quando detectados cedo.
Apresentam uma ferida ou lesão na pele que sangra, forma crosta e depois retorna, ou que persiste por mais de quatro semanas.
Qualquer mancha, nódulo ou ferida que continua a crescer ou se expandir.
O carcinoma basocelular (CBC) tende a ter o crescimento mais lento e menos agressivo, e pode se manifestar como:
- nódulo perolado: uma pequena protuberância elevada, brilhante, de cor rosa, branca, translúcida ou, às vezes, escura (pigmentada). Pode ter vasos sanguíneos finos e dilatados visíveis (telangiectasias) nas bordas;
- mancha vermelha ou irritada: mma mancha avermelhada, plana e escamosa, que pode coçar ou sangrar e que não melhora com cremes ou tratamentos; e
- lesão tipo cicatriz: Uma área plana, firme, de cor branca ou amarelada, semelhante a uma cicatriz mal definida.
O carcinoma espinocelular (CEC) é mais propenso à metástase do que o CBC e pode se manifestar como:
- ferida crostosa: uma mancha escamosa, avermelhada e dura, ou um nódulo áspero que forma crosta e pode sangrar facilmente;
- lesão tipo verruga: um crescimento elevado, espesso e verrucoso que pode ser doloroso; e
- ferida no lábio inferior: uma área áspera e persistente no lábio que não cicatriza.
Qualquer pinta, mancha ou ferida que mude de aparência, sangre, coce, doa, ou não cicatrize em um período de quatro semanas deve ser imediatamente avaliada por um dermatologista. O autoexame regular é a sua melhor ferramenta de prevenção.
Câncer de pele tem cura
O câncer de pele tem cura, e as chances de recuperação são altíssimas, principalmente quando a doença é diagnosticada e tratada nas fases iniciais.
O tratamento é sempre individualizado, mas o procedimento mais comum para tumores localizados é a cirurgia.
Para os tipos mais comuns, o tratamento é geralmente local:
- Cirurgia de excisão simples – o tumor visível é removido juntamente com uma pequena margem de segurança de pele sã ao redor.
- Cirurgia micrográfica de mohs – técnica especializada usada principalmente para tumores no rosto ou em áreas de alto risco.
O cirurgião remove o câncer em camadas finas e examina cada uma no microscópio imediatamente, repetindo o processo até que todas as células cancerosas tenham sido retiradas.
- Criocirurgia – o tumor é destruído pelo congelamento com nitrogênio líquido. É indicada para lesões pequenas e superficiais, geralmente em pacientes idosos ou com risco cirúrgico.
- Curetagem e eletrocoagulação – o tumor é raspado (curetagem) e a base da lesão é queimada com um bisturi elétrico (eletrocoagulação). Usado para tumores pequenos e superficiais.
- Terapia fotodinâmica (TFD) – aplicação de um agente químico que torna as células cancerosas sensíveis à luz, seguido pela exposição a uma luz especial que destrói as células.
- Imunoterapia ou quimioterapia tópica – uso de cremes ou pomadas contendo medicamentos que destroem as células cancerosas ou estimulam o sistema imunológico localmente.
- Radioterapia – usada em casos específicos, como tumores volumosos, em locais de difícil cirurgia, ou para pacientes que não podem ser operados.
- Em casos de melanoma, o tratamento depende muito da sua espessura (índice de Breslow) podendo incluir:
- Cirurgia para remoção completa do tumor e de uma margem de segurança maior do que a usada para não-melanoma.
- Pode-se realizar a biópsia do linfonodo sentinela para verificar se há disseminação para os gânglios mais próximos.
- Imunoterapia – medicamentos que estimulam o sistema imunológico do paciente a reconhecer e destruir as células cancerosas.
- Terapia-alvo – medicamentos que atacam as mutações genéticas específicas presentes nas células do melanoma (como a mutação BRAF).
- Quimioterapia ou radioterapia – menos frequentes e mais reservadas para casos específicos, ou para controle de sintomas.
Lembrando que o acompanhamento regular com um dermatologista, mesmo após a cura, é essencial para monitorar a pele e detectar rapidamente qualquer nova lesão.
Prevenção do câncer de pele
Prevenir o câncer de pele envolve uma combinação de medidas de proteção solar no dia a dia e um acompanhamento médico preventivo.
As principais estratégias de prevenção são:
- Evite a exposição solar prolongada entre 10h e 16h, quando os raios UV são mais intensos e prejudiciais.
- Priorize sempre a sombra (sob árvores, guarda-sóis, toldos) para atividades ao ar livre, especialmente no meio do dia.
- Aplique um protetor solar de amplo espectro (proteção contra UVA e UVB) com Fator de Proteção Solar (FPS) 30, no mínimo.
- Aplique o protetor generosamente em todas as áreas expostas 30 minutos antes de sair de casa.
- A recomendação da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) é o equivalente a uma colher de chá para o rosto e três colheres de sopa para o corpo.
- Reaplique a cada duas horas de exposição contínua ao sol ou após nadar, suar em excesso, ou secar-se com a toalha.
- Use protetor solar mesmo em dias nublados e no inverno, pois a radiação UV consegue penetrar nas nuvens.
- Use roupas que cubram a maior parte do corpo, como camisas de manga comprida e calças. Roupas com Fator de Proteção Ultravioleta (FPU) são excelentes para atividades ao ar livre.
- Opte por chapéus de abas largas (pelo menos sete centímetros) que protejam o rosto, pescoço e orelhas.
- Use óculos de sol com proteção de 100% contra os raios UVA e UVB para proteger os olhos e a pele sensível ao redor.
- Evite completamente o uso de câmaras de bronzeamento artificial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) as classificou como cancerígenas.
- Faça um autoexame da pele uma vez por mês em um ambiente bem iluminado, usando um espelho de corpo inteiro e um espelho de mão.
- Não se esqueça de verificar o couro cabeludo, orelhas, palmas das mãos, plantas dos pés e unhas. Se necessário, peça a ajuda de alguém nessa observação.
- Procure por feridas que não cicatrizam em 4 semanas ou lesões vermelhas, descamativas ou brilhantes.
- Visite um dermatologista pelo menos uma vez ao ano para um exame completo da pele, especialmente se você tiver múltiplos fatores de risco (pele clara, muitas pintas, histórico familiar).
- Em casos de alto risco ou muitas pintas, o médico pode sugerir o mapeamento corporal e a dermatoscopia.
Fontes – Sociedade Brasileira de Dermatologia; Ministério da Saúde; A.C. Camargo; Instituto Vencer o Câncer; Veja Saúde; Hospital Alemão Oswaldo Cruz; e Fiocruz.
