O cuidado com a sua audição deve iniciar nas primeiras horas de vida, quando é realizado o teste da orelhinha, cujo nome técnico é triagem auditiva neonatal, um exame preventivo fundamental realizado idealmente entre as primeiras 24 e 48 horas do bebê, ainda na maternidade.
Ele serve para identificar precocemente se o recém-nascido tem qualquer alteração na audição.
É um procedimento não dói, não usa agulha e não precisa de sangue. Um fone de ouvido acoplado a um computador é colocado delicadamente na entrada do canal auditivo do bebê.
O aparelho emite sons suaves. O computador mede as emissões otoacústicas, que são as respostas (ecos) que o ouvido interno produz quando recebe o som.
O teste é rápido, levando em média cinco minutos, e feito preferencialmente enquanto o bebê está dormindo.
A audição é a porta de entrada para o desenvolvimento da fala e da linguagem. Se um bebê nasce com perda auditiva e isso não é detectado logo, ele terá dificuldades graves para aprender a falar e se comunicar.
A detecção precoce permite iniciar o tratamento ou a reabilitação antes dos seis meses de idade.
Um resultado alterado no primeiro exame não significa necessariamente que o bebê é surdo. Pode haver apenas um pouco de líquido (vernix ou líquido amniótico) no canal auditivo no momento do teste.
Nesses casos, o médico ou fonoaudiólogo solicita um reteste em cerca de 15 a 30 dias. Se a alteração persistir no segundo teste, aí sim o bebê é encaminhado para exames mais profundos com um otorrinolaringologista.
Tipos de surdez
A surdez (ou deficiência auditiva) não é igual para todos. Ela é classificada de acordo com onde o problema está localizado no ouvido e o grau da perda.
Os tipos principais, divididos pela localização do problema, são:
- Surdez condutiva – ocorre quando algo impede o som de passar do ouvido externo para o médio. O ouvido interno (cóclea) está saudável, mas o som não chega lá direito.
As causas comuns são o excesso de cera, infecções (otites), acúmulo de líquido, perfuração do tímpano ou malformações nos ossinhos do ouvido. Muitas vezes é reversível com medicamentos ou pequenas cirurgias.
- Surdez sensorioneural – é o tipo mais comum de surdez e ocorre quando há danos nas células ciliadas da cóclea (ouvido interno) ou no nervo auditivo. O som chega, mas o cérebro não consegue interpretá-lo corretamente.
As causas mais comuns são o envelhecimento natural (presbiacusia), exposição a ruídos altos, infecções congênitas (como rubéola), genética ou uso de certos remédios tóxicos ao ouvido.
Geralmente é permanente e o uso de aparelhos auditivos ou implante coclear ajuda muito na recuperação da audição.
- Surdez mista – como o nome diz, é uma combinação das duas anteriores. Existe um problema na condução do som e, ao mesmo tempo, uma lesão no nervo ou na cóclea.
- Surdez central – o ouvido funciona perfeitamente, mas o problema está nas vias auditivas centrais ou no cérebro. Ele recebe o sinal elétrico, mas não consegue processar o que aquele som significa. É comum em casos de AVC ou traumas cranianos.
Além do tipo, os médicos medem a intensidade da perda em decibéis (dB), onde a deficiência auditiva pode ser divindade nos seguintes graus:
- Leve – dificuldade em ouvir sons baixos ou conversas em locais barulhentos.
- Moderada – precisa que as pessoas falem mais alto; dificuldade clara em conversas em grupo.
- Severa – só ouve sons muito fortes (como gritos próximos ou latidos).
- Profunda – não ouve quase nada; a comunicação depende muito da leitura labial ou Libras.
Quando unilateral afeta apenas um ouvido; se for bilateral afeta os dois ouvidos (podendo ter graus diferentes em cada um).
Sinais de uma audição comprometida
Muitas vezes, a perda auditiva é silenciosa e o cérebro vai se adaptando a ela, compensando a falta de som sem que você perceba imediatamente. Por isso, é importante ficar atento aos sinais comportamentais e físicos.
Aqui estão os principais indícios de que sua audição pode estar precisando de atenção:
- Você se pega pedindo para as pessoas repetirem o que disseram com frequência.
- Você consegue conversar bem com uma pessoa em um lugar silencioso, mas se perde completamente em restaurantes, festas ou reuniões com muita gente falando.
- Você ouve que a pessoa está falando, mas parece que as palavras estão abafadas ou que ela está falando para dentro.
- Você percebe que precisa olhar fixamente para a boca das pessoas para entender o que elas dizem.
- Outras pessoas reclamam que o volume da televisão ou do rádio está alto demais.
- Você para de notar sons suaves, como o canto dos pássaros, o tique-taque de um relógio, a campainha ou o toque do telefone em outro cômodo.
- Especialmente em crianças, a perda auditiva pode ser confundida com falta de atenção ou dificuldade de aprendizado.
- Ouvir um chiado, apito, batida ou zunido constante (ou intermitente) nos ouvidos. Este é um dos sinais de alerta mais comuns de lesão auditiva.
- Aquela pressão ou plenitude auricular, como se houvesse água ou algodão dentro do ouvido.
- Sons que deveriam ser normais (como o barulho de talheres ou uma porta batendo) parecem extremamente desconfortáveis ou dolorosos.
- Como o labirinto (sistema de equilíbrio) fica no ouvido interno, problemas auditivos podem causar vertigens.
Se você responder SIM para mais de duas perguntas abaixo, vale a pena agendar uma audiometria:
- Tenho dificuldade em falar ao telefone?
- Sinto que as pessoas estão sussurrando quando falam comigo?
- Me sinto cansado ou estressado após longas conversas?
- Frequentemente entendo uma palavra por outra (ex: entende pato em vez de passo)?
- Comecei a me isolar de eventos sociais porque é difícil entender o que dizem?
Se você apresentar uma perda súbita de audição (parar de ouvir de um lado de uma hora para outra), isso é considerado uma emergência médica. Procure um pronto-socorro especializado em otorrinolaringologia imediatamente, pois as chances de recuperação dependem da rapidez do tratamento.
Surdez é reversível?
A reversão da surdez depende da causa, mas na grande maioria dos casos de surdez congênita (de nascença), o objetivo não é reverter para o estado original, mas sim restaurar a função auditiva por meio de tecnologia.
O ponto crucial é que, quando diagnosticada no início da vida, a criança tem chances altíssimas de desenvolver a fala e ter uma vida absolutamente normal.
Se o bebê nasceu com alguma malformação nos ossinhos do ouvido ou se há acúmulo de líquido/vernix que não sai sozinho, o tratamento pode envolver medicamentos ou cirurgias corretivas simples. Nesses casos, a audição pode ser totalmente ou parcialmente recuperada de forma natural.
Em casos de surdez sensorioneural, que é o mais comum em bebês com perda auditiva severa ou profunda (problema no nervo ou na cóclea), as células mortas não voltam à vida, mas a tecnologia faz o papel delas.
Podem ser indicados aparelhos auditivos que amplificam o som para perdas leves a moderadas. Ou implante coclear, que é uma cirurgia onde um eletrodo é inserido na cóclea para estimular o nervo auditivo diretamente.
Se o implante for feito cedo (geralmente por volta de 1 ano de idade), o cérebro da criança aprende a ouvir e falar como qualquer outra pessoa.
É fundamental que, diante de um diagnóstico precoce, exista também uma intervenção rápida, o que pode ajudar muito na qualidade de vida dessa pessoa.
Tratamentos para perda auditiva
Os tratamentos para a perda auditiva evoluíram muito e são escolhidos com base em dois fatores principais: o tipo de surdez (onde está o problema) e o grau da perda (o quanto a pessoa escuta).
As principais abordagens utilizadas hoje são:
- Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI) – os conhecidos aparelhos auditivos são mini-computadores que captam o som, processam e o entregam de forma amplificada e nítida para o ouvido.
Indicados para perdas de grau leve a severo, geralmente do tipo sensorioneural ou condutiva crônica.
Os modelos modernos reduzem o ruído de fundo, focam na voz de quem fala e muitos se conectam via Bluetooth diretamente ao celular ou TV.
- Implante coclear – diferente do aparelho comum, o implante não apenas aumenta o volume do som; ele substitui a função da cóclea (o ouvido interno) que não funciona.
É composto por uma parte externa (processador de fala) e uma interna, colocada via cirurgia. Ele transforma o som em sinais elétricos que estimulam diretamente o nervo auditivo.
É indicado para pessoas com surdez severa ou profunda que não têm ganho satisfatório com aparelhos comuns. É a principal ferramenta para bebês que nascem com surdez profunda.
- Cirurgias corretivas – muitas vezes, a surdez é causada por um problema físico que pode ser tratado, como: timpanoplastia (reparo de um tímpano perfurado); estapedectomia (substituição de um dos ossinhos do ouvido, o estribo, por uma prótese, comum em casos de otosclerose); e tubos de ventilação (pequenos drenos colocados no tímpano de crianças que sofrem com infecções de repetição ou acúmulo de líquido, a otite serosa).
- Próteses Auditivas Ancoradas no Osso (BAHA) – em vez de enviar o som pelo canal auditivo, esses dispositivos transmitem as vibrações sonoras através do osso do crânio diretamente para o ouvido interno.
Indicado para pessoas com malformações na orelha externa/média ou surdez unilateral (em apenas um ouvido).
O tratamento não é apenas tecnológico; o cérebro precisa aprender (ou reaprender) a ouvir, por isso são indicadas as terapias de apoio.
- Fonoaudiologia (Terapia Aurículo-Verbal) – fundamental para crianças com implante ou aparelho. Ensina o cérebro a interpretar os novos sinais sonoros e desenvolver a fala.
- Treinamento auditivo – exercícios para adultos que começaram a usar aparelhos agora, ajudando a entender melhor a fala em ambientes barulhentos.
- Libras (Língua Brasileira de Sinais) – uma forma de comunicação visual rica e completa, essencial para a identidade e inclusão de pessoas na comunidade surda, especialmente quando a tecnologia não é uma opção ou desejo do paciente.
Cuida da sua saúde auditiva
Evitar a perda auditiva é, em grande parte, uma questão de preservação. Diferente de outras partes do corpo, as células ciliadas do ouvido interno (responsáveis por converter som em sinais elétricos) não se regeneram. Uma vez mortas, a perda é permanente.
Aprenda as estratégias práticas para proteger sua audição em diferentes fases da vida:
- O uso inadequado de fones é a causa nº 1 de perda auditiva precoce em jovens hoje.
Use a regra 60/60, ou seja, o volume em no máximo 60% da capacidade do aparelho por, no máximo, 60 minutos seguidos.
Fones com cancelamento de ruído são ótimos porque permitem que você ouça música em volumes baixos, já que você não precisa competir com o barulho do espaço onde está.
Evite fones intra-auriculares (aqueles que entram no canal), pois eles jogam o som direto no tímpano. Os fones tipo concha (over-ear) são um pouco mais seguros.
- Proteja-se em ambientes barulhentos se o seu trabalho ou hobby envolve barulho (obras, fábricas, shows, tiro esportivo, pilotar motos), o uso de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) é obrigatório.
Existem desde espuminhas baratas até protetores de silicone moldados sob medida. Em festas ou shows, evite ficar parado logo à frente das caixas de som.
Se você pratica natação, use protetores de silicone para evitar a otite externa, que é a inflamação causada pela água contaminada presa no canal.
- Nada de cotonete para higienizar seu ouvido. O cotonete empurra a cera para o fundo, podendo causar infecções (otites) ou até perfurar o tímpano.
Use a ponta da toalha após o banho apenas na parte externa da orelha. A cera é uma proteção natural, não é sujeira.
- Alguns antibióticos e medicamentos para quimioterapia podem danificar a audição. Nunca se automedique. Se você notar zumbido ou tontura após iniciar um novo remédio, informe seu médico imediatamente.
- Muitas doenças que causam surdez podem ser evitadas com vacinas. Vacine-se contra rubéola, sarampo, caxumba e meningite que são causas comuns de surdez profunda.
Controle a diabetes e pressão alta. Problemas na circulação sanguínea afetam a irrigação do ouvido interno, levando à perda auditiva ao longo dos anos.
- O ouvido muitas vezes avisa quando algo está errado antes da perda de audição ser notada. Fique atento para zumbido (tinnitus), que é quando você ouve um apito, chiado ou barulho de grilo, pois isso costuma mostrar que seu sistema auditivo está sinalizando sofrimento.
Se você ouve o que as pessoas dizem, mas não entende as palavras, pode ser um sinal precoce de perda auditiva.
O ouvido também é responsável pelo equilíbrio. Problemas auditivos e tonturas andam de mãos dadas. Esses sinais indicam que é hora de buscar ajuda médica, o quanto antes.
- Silencie o mundo, dê uma pausa para o seu ouvido oferecendo 10 minutos de silêncio após cada hora em ambientes barulhentos.
- Para adultos que trabalham em ambientes ruidosos é indicado fazer audiometria anual.
- Não ignorar o isolamento social de idosos. Muitas vezes, o idoso se afasta da família porque não está entendendo do que estão falando e ficam com vergonha de dizer. Pode ser perde auditiva que precisa de auxílio médico.
- Nunca coloque gotas, óleos ou remédios caseiros no ouvido sem indicação médica. O tímpano é uma membrana sensível e qualquer substância errada pode causar danos permanentes.
Fontes – Biblioteca Virtual em Saúde; Einstein; Portal Terra; Audição Activa; Boa Forma; Sociedade Brasileira de Pediatria; Tua Saúde; e Rede D’Or.
